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Armário Coletivo e o zeitgeist do futuro

Iniciativa independente começou em Florianópolis e pretende conquistar o mundo disseminando uma nova mentalidade de consumo.


Por Simone Bobsin-Jornalista com atuação no segmento de arquitetura e design.


Julho de 2015 é a data oficial de uma história que iniciou pelo menos 5 anos antes, carrega uma inquietação pessoal e se transformou em um exemplo tangível de empreendedorismo social, ambiental e cultural. Armário Coletivo é o nome dessa iniciativa independente e de rua que nos diz muito sobre consciência coletiva, compartilhamento, novas economias, mudança de mindset. Representa, de certa maneira, o zeitgeist do futuro unindo o melhor de dois mundos: off-line e on-line para gerar uma grande transformação em nossos hábitos e valores de consumo.


Uma “necessidade de” mudança que já causava desassossego em Carina Zagonel, designer de interiores por formação e empreendedora social à frente do Armário Coletivo. “Tu conhece a história da canequinha?”, pergunta a gaúcha que mora em Florianópolis desde 1999. Sim, conhecia a história das centenas de canecas de barro jogadas no chão ao final de uma festa junina que Carina juntou, pintou e, com a venda, pagou o aluguel do mês seguinte. “O meu olhar para os materiais descartados já vem de tempo”, diz a também artesã, que na época abriu o Ateliê de Ideias para produzir ‘coisas’, como fala, já que ninguém a conhecia na cidade. Entre uma capacitação e outra, ela e o marceneiro e criativo Albano Bernardes produziram mosaicos durante 10 anos para a L’occitane com material de resíduo, foi incubada no Sapiens Park justamente por trabalhar com descarte e, naquele momento, começou sua inserção no setor de tecnologia. 



EXPERIÊNCIA DO COMPARTILHAMENTO  


Paralelamente, Carina ajudava amigos com reformas e sempre voltava com o carro cheio para casa. “As pessoas enjoam das peças, as vezes têm uma história ruim ali, mas a gente que recebe não carrega essa carga e ainda ressignifica”, explica. Para fazer o descarte, a ideia foi colocar o material em frente à sua casa, no bairro Vargem Pequena, como uma experiência de observação do comportamento da vizinhança. 

Em julho de 2014 levou a ação para a esquina da rua para tornar a iniciativa mais independente e iniciar um processo educativo, inserindo a placa com a frase “Deixe aqui o que você não usa mais, mas que pode servir para outros” ao lado de um par de tênis usado. Em seguida, o sapato sumiu e outros objetos foram colocados na calçada. “Arrumei um problema pra mim”, fala rindo sem imaginar onde o embrião do futuro Armário Coletivo a levaria. 


Todas as peças compartilhadas que ficavam na calçada eram retiradas sempre que chovia. Para não danificar, Albano fez um móvel com telhado e pés e, junto com Carina, batizou de Armário Coletivo.  “Descobri que a gente tem demais, em excesso, e que muita coisa vai parar no lixo porque as pessoas não se deslocam para fazer o encaminhamento correto”, conta. Foi então que Carina se deu conta da necessidade coletiva do compartilhar e nunca mais usou a palavra doar, mudando seumindset –faz 6 anos que ela não compra roupas, todas suas roupas vem através do compartilhamento.


ARMÁRIOS COLETIVOS ASSUMEM AS RUAS


“A fofoca logo se espalhou”, nas palavras da empreendedora social e, em julho de 2015, oficialmente o Armário Coletivo assumiu as ruas disseminando seu caráter social, ambiental e cultural. Além de influenciar novos hábitos, conexões e economias, o armário gera relação de vizinhança e interfere positivamente na paisagem urbana por meio da transformação dos espaços públicos onde está inserido. 


Atualmente existem 15 Armários Coletivos oficiais, 14 na Ilha de Santa Catarina e um em Curitiba, além de cinco inspirados neste modelo espalhados em outras estados como Bahia e Minas Gerais, cuja gestão é independente. Na capital do Paraná, o armário foi implantado com todo o cuidado dentro de um ecossistema que entende o propósito do negócio social, já que Carina e Albano não estão por perto para fazer a gestão. 

São eles à frente de todo o processo, desde a manutenção do móvel feito em madeira maciça de reaproveitamento à comunicação por meio de palestras, e a geração de conteúdo on-line. Voluntários ajudam a organizar e informar sobre os armários por meio de redes sociais. Seis modelos foram desenvolvidos numa parceria com o departamento de Design do IFSC, durante dois anos. 


DADOS

A partir da conta que considera uma média do valor dos objetos e do compartilhamento por dia, multiplicado pelo número de armários e o tempo que estão na rua, chegou-se ao dado de 400 mil compartilhamentos neste 5 anos de atuação. “Acreditamos que esse número possa ser muito maior, por enquanto estamos conseguindo gerar esses dados ao analisar um dos armários por uma semana, e assim termos ideia do impacto econômico que a rede faz aqui em Florianópolis”, explica Carina.

Segundo artigo de Valdecir Babinski Júnior, professor no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), campus Jaraguá do Sul, este movimento de economia compartilhada está inserido dentro do pilar dos mercados de redistribuição, quando um produto deixa de fazer sentido em um local, ele é realocado, e passa a ter importância em outro. De acordo com o pesquisador em sustentabilidade e moda do Programa de Pós-Graduação em Design de Vestuário e Moda da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), um único armário gera uma economia em torno de 10 mil reais para o ecossistema que o utiliza.


FUTURO

Qual o futuro do Armário Coletivo? Carina aponta duas formas de crescer: contratando equipes para cuidar dos móveis e disseminar a cultura do compartilhar ou reproduzir o modelo como já vem acontecendo. “A gente quer fazer com que as pessoas sintam essa cultura, que a gente já tem naturalmente, é só resgatar. Precisamos levantar de novo a esperança de que as pessoas possam se ajudar. Por mais que o Armário Coletivo seja off-line, ele também está no mundo on-line. Ele acessa os dois mundos”, diz Carina. Outra forma é de ensinar as pessoas a serem protagonistas nas suas comunidades e criarem seus próprios espaços de compartilhamento, e ou resolver outros desafios do seu local.



Assim como foi dito no começo desta matéria, o Armário Coletivo é um case tangível de empreendedorismo social, ambiental e cultural, que reflete ozeitgeistdo futuro e traz para o debate conceitos como de sustentabilidade, upcycling, consumo consciente. “O que podemos mudar é a consciência das pessoas, vamos reduzir quando passarmos a consumir menos. Na indústria da moda, por exemplo, o problema é ela mesmo, que produz demais, e nós consumidores, que compramos demais, somos parte disso tudo”, afirma Carina.


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